Cintia Lessa Lima Cancellier
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Vida de atleta

Vida de atleta

 

 

         A aula já havia terminado, tinha levado duas surras da Dinha pra variar durante os dois rounds de 5 minutos cada. Estávamos jogadas no tatame e resolvemos brincar um pouco quando de repente, tentando tomar a guarda da Dinha, levei uma raspagem e meu dedinho do pé esquerdo grudou no tatame..só escutei um crekkkk e senti uma dor no pé! Paramos na hora e vi meu quinto dedo do pé olhando pro lado, estilo um  “L”.Naquele momento a Dinha se assustou pensando que eu tinha quebrado o dedo, mas eu achei que era” só” uma luxação.

         Meu pai sempre me busca quando termina a aula e a Dinha brinca todas às vezes dizendo que quebrou uma perna, um braço, ou alguma parte do meu corpo. Quando meu pai apareceu no final da escada, minha amada mestra disse que havia quebrado meu dedo, mas, como é costume essa frase, meu papis imaginou que era mais uma brincadeira...só que desta vez não.

         Enquanto foi buscar o carro para colocar mais próximo da academia, o Mestre Tiago Alves subiu para dar uma olhada no meu pé e vendo aquele dedo dando seta pra esquerda me perguntou se poderia reposicionar e se eu aguentaria a dor. Na mesma hora eu disse que sim e ele fez o trabalho. Tiago brincou muito comigo dizendo que agora eu estava no clima do jiu-jitsu me contando suas histórias de quebras nas lutas também.

         Passamos em casa pra pegar meus documentos e ir para o pronto socorro. Imaginem só a pessoa aqui, numa cadeira de rodas vestindo o quimono azul com a marca do Mestre Barbosa. O segurança que me ajudou sair do carro e ir pra cadeira de rodas não parou um minuto de me provocar brincando . Claro que quem olhava pra mim, imaginava que havia uma fera dentro daquela roupa!

         Contei toda a história para o médico (Dr. Marcelo, ortopedista do plantão do Santa Isabel) que foi muito atencioso comigo e me encaminhou para a radiografia.

         Quando retornei a sala do médico, ele me disse que o meu amigo, Tiago, tinha adiantado muito bem o trabalho dele, recolocando certinho o dedo no lugar, mas, também havia uma fratura ali.

         Ele disse que vou ter que ficar de molho um bom tempo, parar de treinar no tatame, me dando um atestado de 45 dias de repouso. Imaginem o meu desespero na hora que ouvi aquelas palavra: ficar afastada do trabalho e academia por um mês e meio, meu Deus. E me recomendou a sandália Augusta, para o meu pé ficar imóvel.  Já fiquei taquicárdica e taquipneica (coração e respiração acelerados).

         O Dr. Marcelo disse que esta é uma fratura chatinha de consolidar. Acredito que pelo local ( terceira falange do quinto dedo).

Vou ficar de molho um tempinho, mas faz parte. Digo mais, me senti como uma criança de seis anos, porque naquela época eu e minhas amiguinhas, enrolávamos o braço com fralda pra imitar gesso, era o máximo fingir que quebramos o braço. E hoje, eu de quimono com o dedo quebrado, me senti a lutadora de jiu-jitsu após uma lesão durante um super combate!

         Outra etapa agora: fortalecer as pernas, tronco e braços,  controlar a energia, desligar a tomado do 220, fazer só o que dá sem descarga de peso nesse pé (a final sou fisioterapeuta)  e esperar o Ederedii que deve estar chegando pra me dar uma surra, ops, uma aulinha light de musculação!

         Brincadeiras a parte, claro que tenho que seguir as restrições devido à fratura (não mexer o pé, não fazer descarga de peso, evitar ficar pra lá e pra cá e fazer um pouco de repouso com a perna pra cima), mas não posso me esquecer das outras partes do meu corpo, porque se eu parar de me movimentar, complica toda minha vida! Já tenho dificuldade motora, imaginem se eu parar de fazer tudo?  Complicado, não é mesmo? Preciso manter minha mobilidade para o retorno das minhas atividades quando puder. Isso eu tento passar para os pacientes, porque quando a gente deixa de fazer o que é possível, o corpo fica preguiçoso, acostuma e aí a casa cai mesmo.

        

 

 

Cintia Lessa Lima Cancellier
Fisioterapeuta, Mestre pelo IAMSPE (área de neuro-reabilitação ), autora do Livro - Exercícios e Posturas para o paciente com sequela de AVC e outras doenças neurológicas. Especialista pela Santa Casa de Misericórdia em Fisioterapia neuro-múscoloesquelética. Pós Graduada pela Gama Filho em Fisioterapia Cardiorrespiratória.
Apaixonada por desafios.
Atleta amadora !