Patrícia Rovarotto
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MULHER, ÁRBITRA E JUÍZA DE BOXE

MULHER, ÁRBITRA E JUÍZA DE BOXE

Muitos me perguntam como é ser uma mulher árbitra e juíza de Boxe. 

Na maioria das vezes, respondo genericamente, digo que é desafiador, uma grande responsabilidade, mas também uma grande honra. 

Na verdade, muitas das vezes, para evitar longas discussões, digo até irresponsavelmente que é como é para um homem. 

No fundo, isso é o que nós, mulheres, gostaríamos de viver quando trabalhamos em ambientes de predominância masculina. Que a história fosse a mesma, que os esforços fossem os mesmos, que os desafios fossem os mesmos e que o reconhecimento fosse o mesmo. 

Mas não é.

Minha trajetória como árbitra de Boxe começou há 6 anos. 
Eu estava me formando em Psicologia e tinha descoberto o Boxe, um ano antes. Eu treinava por hobbie mas já tinha virado uma aspirante a lutadora, louca para competir no esporte.

Meu então treinador não era muito a favor de mulheres lutando e sempre tentava me fazer desistir de lutar e treinar só por 'fitness'.

Desde pequena, fã de Tyson e Maguila, eu assistia às lutas dos anos 90 na tv com o meu pai. 

Queria muito subir ao ringue e estar envolvida naquele mundo mágico e selvagem que sempre me encantou. 

Assistindo a uma luta, me atentei, pela primeira vez, na figura do árbitro. 

Comecei a me interessar mais pela forma como eles pontuavam, analisavam e conduziam a luta. 

Uma noite, veio à minha atenção um árbitro, nos seus 40 anos, negro, alto, de andar elegante e uma firmeza e assertividade no ringue. Ele simplesmente conduzia a luta com tanta competência e beleza que me tirou a atenção dos lutadores e até hoje não me lembro quem eram. Aquele senhor era Tony Weeks e ele se tornou um ídolo máximo para mim.

Logo percebi que eu podia estar perto do boxe de outras formas além de lutadora. 

Um dia descobri sobre um árbitro que estava prestes a dar um curso. Consegui seu contato. Ele, um senhor nos seus 70 anos, me convidou para acompanhá-lo em alguns eventos e ajudar com os afazeres da arbitragem. 
Passei 6 meses sendo uma espécie de aprendiz dele e assistente e ele ia me ensinando sobre arbitragem, pontuação. Logo, quando saiu o tal curso, fui e fiz, me formei com a nota mais alta. Eu já tinha aprendido na prática algumas coisas e outras, sempre pesquisei e estudei muito. 
Com a formalidade cumprida, meu então professor me levou até a Federação Paulista de Boxe e lá comecei a "estagiar" nos tradicionais campeonatos Forja de Campeões, Luvas de Ouro, Kid Jofre, comandados pelo icônico senhor Newton Campos, uma lenda viva do boxe brasileiro. 

Foram mais uns meses indo aos campeonatos todos os fins de semana, ajudando a distribuir papeletas para os juízes mais velhos, observando, levando café e água aqui e ali e me deixaram julgar uma luta, depois outra. Até que comecei a acompanhar o meu então "professor" a alguns campeonatos e a julgar lutas e atuava já bem como jurada, mas ele nunca me deixava atuar como árbitra. E eu queria tanto!

Mas ele nunca me achava pronta. 

E eu já tinha visto isso em algum lugar. 

Com o tempo percebi. 

Ele tinha uma outra "aluna", uma espécie de assistente de anos que estava sempre com a gente. E ela nunca subia como árbitra. Com o tempo descobri que ela, uma mulher nos seus 50 anos, era, na verdade, amante dele e ia com ele pra cima e pra baixo não pelo Boxe, mas por ele. 

Entendi tudo. 

Ele nunca havia tido segundas intenções comigo e sempre me tratou como uma filha. Até chamava ele de "pai" e ela de "mãe", na brincadeira. 

Mas com o tempo entendi que estava envolvida num meio onde não teria muito espaço pra mim, sendo mulher. E eu teria que me envolver ali sempre como a "filhinha" ou a "mulher" de alguém. Isso me frustrava. 

Comecei a me distanciar do meu primeiro professor e a conviver mais com outros árbitros e conheci o Genival Gomes. Muito ético, de postura profissional, ele sempre falava comigo sobre arbitragem, me instruía, me ensinava e sempre me perguntava sobre como eu tinha julgado as lutas e os porquês da minha decisão, num ar de teste mas também de quem realmente exigia mais de mim que só ser só a "menina que ajudava o velho". Ele dizia ver potencial em mim.

Até que me chamou para trabalhar num campeonato de academia e me disse "Você vai subir hoje". 

Me tremi toda. 

Subi como árbitra e ali me senti como um pássaro empurrado do penhasco que, no susto, começa a voar instintivamente. 

No mesmo campeonato, ganhei um prêmio como melhor árbitra e o meu mais novo professor não demorou a espalhar a notícia de que eu era boa árbitra também.

Validada pelo grande mestre, comecei a atuar nos campeonatos da Federação Paulista. 

Na linha de frente, senti que, por ser mulher, os técnicos e o público questionavam muito mais minhas decisões que a de outros árbitros homens, novatos como eu. 

Aprendi que, como mulher, a fórmula tinha que ser diferente. O que funcionava pros árbitros homens, não funcionava pra mim. 

Se eles tinham que ter certa postura de imparcialidade e firmeza para serem respeitados como árbitros, eu tinha que ter o dobro. Se eles tinham que se cobrar competência, eu tinha que me cobrar em dobro. 

Com o tempo, percebi que só conseguiria respeito se mostrasse segurança, competência e que não estava ali para ser a "filhinha", a "amiguinha" ou a "mulherzinha" de ninguém. 

Aí entra o grande dilema de ser mulher numa função de autoridade.

Se você é gentil, simpática e suave e dá liberdade para aproximações, logo chegam homens que aproximam com segundas intenções ou outros que querem te ensinar sobre a sua função e muitos que simplesmente não confiam na sua competência, ética. Logo chegam os comentários de que você ajudou Fulano porque estava de papo com ele antes da luta ou de que não entende nada de Boxe.

Mas quando você é uma mulher séria e está compenetrada em sua função, muitos vão te julgar como arrogante, que "virou juíza e subiu à cabeça", vão dizer que você está de TPM, que é brava, "mal amada", etc.

Quando me tornei a primeira Árbitra de Boxe Profissional do Brasil, me senti tão orgulhosa pelo que conquistamos como mulheres que fiz uma postagem sobre isso. Depois de tanto tempo e tantos obstáculos superados, eu queria gritar essa vitória aos quatro cantos!

Dias depois, descobri que uma grande figura dentro do Boxe disse que eu estava "me achando demais", que era melhor parar de me escalar pra eu "abaixar a bola". Vê só? Ganhei o estigma de arrogante de novo, simplesmente por comemorar uma conquista.

O interessante disso tudo é que essa pessoa era, também, uma mulher. Anotado: competição feminina no mundo das lutas. Assunto para artigos futuros.

Conheci meu marido muito depois de tudo isso. Eu já era árbitra e juíza por um ano. Ele também é lutador de Boxe e nos conhecemos através do esporte.

Não preciso nem dizer que, automaticamente, pensam que entrei para o esporte, como atleta e árbitra por causa dele, né?

Até hoje, mesmo depois de ter conquistado grandes coisas como árbitra, muitas pessoas - inclusive colegas de trabalho - me cumprimentam ao chegar num evento onde vou trabalhar e a primeira coisa que me perguntam é "Cadê o seu marido? E a sua filha, ficou com quem?"

É como se as pessoas não conseguissem assimilar a presença feminina dentro do Boxe sem associar imediatamente a algum homem. Para estar ali, ela precisa ser filha, esposa ou mãe de alguém. 

E se você me perguntar qual foi a luta mais difícil da qual já participei como árbitra vou te dizer que foi essa. 
A luta da competência contra o preconceito, do esforço contra o reconhecimento. 

E já te adianto que essa luta não terminou. 

Mas, enquanto houver mais um round, lutarei. Por mim e por todas outras mulheres que virão. Para que o caminho delas seja mais suave, para que as chances sejam mais justas e para que as meninas em cima e embaixo do ringue sejam apenas vistas como lutadoras, juízas, árbitras, cutwomen... E não como a extensão de algum outro homem do esporte.

Patrícia Rovarotto
Boxeadora, Personal Boxing Trainer, Psicóloga especializada em Psicologia do Esporte, Árbitra e Juíza de Boxe.