Isabella Rocha
Saúde e bem estar
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Saúde e bem estar
Artes marciais e reabilitação física.

Artes marciais e reabilitação física.

As artes marciais sempre foram cogitadas para manter a forma física, desestressar depois de um dia duro de trabalho, como outros esportes manter a saúde em dia, ajudar na educação e disciplina das crianças e em alguns casos tornar atleta profissional. Até onde sabemos, nunca pensaram que seria um grande aliado na reabilitação de pessoas, adultos e crianças, que sofreram ou nasceram com problemas neurológicos incapacitantes ou limitantes.

Vamos conhecer a história da Cíntia Lessa e saber como essa ideia genial passou a fazer parte da sua vida.

Cíntia Lessa Lima Cancellier, 38 anos, fisioterapeuta formada em 2001. A escolha da profissão surgiu pela sua história de vida. Sofreu um traumatismo craniano aos seis anos de idade, após cair de um banquinho, isso mesmo, um banquinho onde brincava e fazia traquinagens como qualquer criança. Ficou em coma por 11 dias e na UTI por 28. Devido a lesão extensa as sequelas foram de dupla hemiparesia, ou seja, acometimento dos quatro membros de maneira assimétrica e comprometimento da fala.

Confiram abaixo a entrevista e o que essa lutadora da vida tem a nos dizer.

 

Depois do acidente, você nunca parou com a fisioterapia?

Sim, eu parei a fisioterapia, mas não a reabilitação. A fisioterapia tem um papel crucial em determinada fase. Sofri o acidente muito pequena e fiquei com uma sequela bem importante de dupla- hemiparesia (acometimento dos quatro membros assimetricamente). Comecei a fisioterapia no hospital, onde permaneci por 45 dias. Quando retornei para casa, eu não tinha condições físicas de voltar para escola, então o ano seguinte ao meu acidente, 1986, passava todas as manhãs com minha mãe (Denize Lessa Barbosa Lima) na clínica, onde fazia fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia (também tive comprometimento da fala) e psicomotricidade. Meu pai (Rubens Barbosa Lima) também me acompanhou e aprendeu com a fisioterapeuta os exercícios para praticar em casa.

Quando e por quem você soube que o boxe poderia te ajudar na reabilitação?

Foi através de uma brincadeira. Eu fazia musculação em uma academia e um amigo  (Ricardo)  um belo dia, me colocou em  frente a um  saco de boxe!

Adorei! A partir daí, fazia algumas aulas esporadicamente com o Eder,um grande amigo e professor de musculação da academia, doido por boxe também.  Mas eram poucas vezes que conseguíamos marcar por causa do meu horário de trabalho e a disponibilidade da academia, até que abriu uma FILIAL DA GRAICE em frente ao meu prédio!!! Conheci a ROSE Volante!! Quem desempenhou um super trabalho comigo por bastante tempo!!

Quais os ganhos que você percebeu praticando o boxe. Você acha que poderia ter tido os mesmos ganhos com a fisioterapia convencional?

O boxe me proporcionou um ganho de agilidade (escadinha de agilidade, movimentos sequenciais de braços com esquiva e pêndulos) equilíbrio, melhora da postura, principalmente tronco e membros superiores e força.

A fisioterapia faz parte de uma outra fase da reabilitação e os ganhos são bem distintos, imprescindíveis na reabilitação.

Enquanto o paciente apresenta evolução com a fisioterapia, vale a pena continuar.

A motivação que uma academia de luta dá é muito grande. Quando você está em um ambiente de clínica, hospital se tratando e de repente se vê num ringue com um par de luvas de boxe ouvindo o professor falar bate forte, ou no tatame com um kimono rolando pra lá e pra cá.... a energia é completamente diferente!!!. E ao contrário do que o mundo, ou parte do mundo pensa, uma pessoa com sequela motora neurológica ou ortopédica NÃOOO é um eterno paciente da fisioterapia!! Rsrsrs.

O que o boxe te ajudou nas atividades de vida diária:

No dia a dia, o boxe me empolga, assim com outras modalidades esportivas radicais...rsrsrs. Além do ganho funcional de mobilidade, força, agilidade, enfim, tudo isso de bom, tem o fator psicológico que é fortíssimo! Acreditar em você!! O ambiente da academia, treinar com atletas, ver que você apesar de todas as dificuldades, também consegue e acaba servindo de exemplo para colegas de treino preguiçosos, tudo isso é muito bom!! Da uma sensação de plenitude, alegria!

Depois de quanto tempo você passou para o jiu-jitsu?  Como e por que você descobriu que essa arte marcial seria bom pra você?

Sempre tive curiosidade, vontade de tentar. Teve uma época que fiz umas aulinhas na graice, a ROSE me incentivava também (até ganhei o kimono dela), mas  não rolou nessa época. Tentei também um período com personal de muy thai .Pedi ao primo do meu ,que é educador físico, que me dessa uns treinos de boxe pra soltar a musculatura. Aí ele me propôs o jiu, que é sua praia e eu aceitei e me encantei!!! Digo que me encantei pela variedade de exercícios que essa modalidade proporciona.

Quais os ganhos que você percebeu com o jiu-jitsu?

Bastante diferença em pouco tempo. Maior flexibilidade e mobilidade, ganho de força, equilíbrio , melhora na mobilidade ativa da minha mão direita (sou canhota hoje devido a sequela importante nela), passei a usar mais minha mão e estou deixando ` o vício de ajudar com a mão esquerda a abrir a direita...vicio de 32 anos!!! Ganhei também mobilidade de cintura e coluna. Eu não tinha noção do quanto que minha coluna lombar e torácica eram travadas!!!! Estou descobrindo músculos novos! Possibilidades novas! Ganhei algumas dores que nunca tive no inicio, mas tudo bem! Ah, e ganhei um parceiro no meu treino de personal, o meu Pai!! Quem tinha muita vontade de treinar, mas não teve oportunidade e agora, aos 72 anos treina comigo!!!!

Você teve alguma resistência da família ou de treinadores ou desconforto com alunos da academia?

Nunca. Meus pais por preocupação as vezes sim, acham que não estou boa das ideias, mas no final sempre me apoiam, assim como meu marido. Agora, em relação a treinador e colegas eu nunca senti resistência, pelo contrário, sempre notei empolgação. As vezes, quando eu chego na academia a primeira vez eles me olham com cara de interrogação, aí eu já brinco pra quebrar o gelo dizendo que vim sim pra treinar e que não sou louca e completo falando: sou fisioterapeuta no fim, tudo da certo.

Engraçado isso, mas no ambiente de academia, onde há competitividade, luta, atletas, enfim, nunca senti esse desconforto. Agora, no ambiente de clínica, hospital, posto de saúde, onde as pessoas estão em sofrimento por qualquer sequela ou doença, percebo muitos olhares de interrogação e escuto muitas perguntas ou comentários totalmente desprezíveis. O que noto é que algumas  pessoas que possuem alguma limitação são muito mais preconceituosa do que as demais. Ou por medo de ficar com sequela ao me ver, ou por achar que sou incapaz, que sou fraca..enfim, isso acontece e muito.

O que você espera para o seu futuro nas artes marciais?

Bem, claro que eu não penso em lutar, mas espero que esses ganhos motores contínuos possam sim me possibilitar melhoras nas minhas atividades de vida diária e desta maneia ajudar outras pessoas que também apresentam sequelas antigas  e que nem imaginam que o mundo da luta é para todos! Só depois que você consegue ver essa nova possibilidade  (sair da reabilitação convencional e entrar numa radical) é que a gente enxerga o quanto podemos e somos fortes. Olhar para nós mesmos com outros olhos, sem nos importarmos com os olhares críticos e questionadores dos outros. Essa luta é a mais difícil porque ela é contínua e só os verdadeiros campeões,  não desistem de lutar nunca! !!!

Deixe um recado para quem está na mesma situação que a sua . Diga algo para quem vê algo estranho você praticar artes marciais.

Quando ganhamos ou adquirimos alguma sequela ou déficit motor, temos duas possibilidades de escolha: a primeira se fechar, se isolar e não ter que passar por dificuldades no mundo ao redor. A segunda (minha escolha) é encarar o mundo de frente, tendo que passar por obstáculos diários que certamente vão aparecer no seu caminho e vão dificultar sua vida, mas que da maneira mais sábia, você acaba ultrapassando.

O termo deficiente é muito amplo e ao mesmo tempo coloca toda e qualquer pessoa com limitação (física, intelectual, auditiva ou visual) num mesmo patamar, num mesmo barco, como se tudo isso fosse uma coisa só, sem olhar para quem é que está ali. Fico muito brava com isso, porque a pessoa que tem uma limitação e que escolhe lutar com todas as suas forças para vencer os obstáculos , tem que ser muito forte, guerreiro, persistente, ou seja, muito EFICIENTE.  

Quanto a olhares de pessoas que acham estranho eu fazer artes marciais...eu digo com uma certa provocação..rsrsrs.. só as pessoas fortes e corajosas encaram desafios!!!

 

Isabella Rocha
Mineira de Belo Horizonte. Idealizadora, criadora e hoje editora do site Mulheres Loucas Por MMA. Apaixonada por artes marciais e esportes de contato especialmente MMA !